sexta-feira, 28 de setembro de 2018

XXII


Na segunda vez em que nos vimos, me adotou. Virei sua vovozinha e ele, meu neto especial. Não sabia qual foi o instrumento que ele descobriu dentro de mim - eu que nunca fui muito afinada com crianças. Sei que ele me salvava a cada vez que prendia meu rosto entre suas mãos e me olhava de um jeito também especial. Era quando o tal instrumento começava a tocar. Eu virava o anjo que nunca fui.

Lourença Lou


Paulo Bentancur COISAS DE LOU XXII em 6 linhas, como tem sido o maravilhoso projeto. Tomado de síntese, amalgamado entre o miniconto e o poema em prosa, e a conficção, e uma intensa emoção que só Lourença Lou atinge em tão alto nível, alto grau de literariedade. Mas mais que literatura, encontraram-se e já na segunda vez ela se transformou, como numa fábula humaníssima, vovozinha, e ele encontrou-se, amando-a, o seu neto. A poeta não tem temperamento afinado com crianças, mas aquele menino especial a tornou - naquele instante - também mulher especial. O miraculoso toque no seu rosto dado pelo menino-anjo acendeu a alma dos dois. O menino, quase uma entidade, levada a amá-la a partir de um instrumento emocional, afetivo. O desfecho - bem ao estilo de Lourença Lou -: "É quando o tal instrumento começa a tocar e viro o anjo que nunca fui." O instrumento, no fundo, é a condição diferenciada do menino. Quanto mais a poeta nega o humaníssimo ser que é, amorosíssimo, mais o confirma. COISAS DE LOU, para meu gosto, é uma das fundamentais realizações de Lourença Lou! Carinho, admiração, encantamento. Beijos, querida.

L

Não gostava de garotos. Andava sobre saltos e achava que homens maduros eram os grandes parceiros. Aquele menino subverteu meus conceitos ...