Na segunda vez em que nos vimos, me adotou.
Virei sua vovozinha e ele, meu neto especial. Não sabia qual foi o instrumento
que ele descobriu dentro de mim - eu que nunca fui muito afinada com crianças.
Sei que ele me salvava a cada vez que prendia meu rosto entre suas mãos e me
olhava de um jeito também especial. Era quando o tal instrumento começava a
tocar. Eu virava o anjo que nunca fui.
Lourença
Lou
Paulo Bentancur COISAS DE LOU XXII em 6 linhas, como tem sido o maravilhoso projeto. Tomado de síntese, amalgamado
entre o miniconto e o poema em prosa, e a conficção, e uma intensa emoção que
só Lourença Lou atinge em tão alto
nível, alto grau de literariedade. Mas mais que literatura, encontraram-se e já
na segunda vez ela se transformou, como numa fábula humaníssima, vovozinha, e
ele encontrou-se, amando-a, o seu neto. A poeta não tem temperamento afinado
com crianças, mas aquele menino especial a tornou - naquele instante - também
mulher especial. O miraculoso toque no seu rosto dado pelo menino-anjo acendeu
a alma dos dois. O menino, quase uma entidade, levada a amá-la a partir de um
instrumento emocional, afetivo. O desfecho - bem ao estilo de Lourença Lou -:
"É quando o tal instrumento começa a tocar e viro o anjo que nunca
fui." O instrumento, no fundo, é a condição diferenciada do menino. Quanto
mais a poeta nega o humaníssimo ser que é, amorosíssimo, mais o confirma.
COISAS DE LOU, para meu gosto, é uma das fundamentais realizações de Lourença Lou! Carinho, admiração,
encantamento. Beijos, querida.