sexta-feira, 28 de setembro de 2018

XX


Ele era quase padre. Eu, adolescente. Ele era um desperdício de lindo. Eu  tinha os hormônios em desassossego e cara de anjinho. Ele me olhava e disparava a rezar. Eu o olhava e me doía o estômago. E as missas iam ficando pequenas para a fome do nosso olhar. Um dia o esperei na porta da casa paroquial. Parou no meio da escada. Não sabia se voltava ou me enfrentava. Enfrentou. E me viciou em amores proibidos.

Lourença Lou

Paulo Bentancur A série COISAS DE LOU, capítulo XX, sustenta a delícia da tensão amorosa em que a literatura de Lourença Lou traz uma intensíssima marca. A adolescente e o rapaz que se prepara para padre. Mas Deus ou não olha essas coisas ou as bendiz mais do que supúnhamos. A trama, admiravelmente breve, como num miniconto, embora de natureza autobiográfica, traz a temperatura alta do que é essencialmente ficcional (porque sugestivo). O que dá relevo literário ao texto, além da situação (emocionalmente com a força do frisson), é a linguagem, adequadíssima à situação. Temperatura alta, quase irrespirável. E frases de uma eufonia de mestre, ritmo de quem domina a prosa com pulso firme. E aquele desfecho, com a acertada expressão "me viciou em amores proibidos". Uma série já consagrada para quem a acompanha deste o início. Eu adoro! Encontro aqui o acerto pleno da boa literatura e o prazer da leitura que nos acelera o coração. Marca consagrada da série, que manténs sem oscilação. Em suma: irresistível a leitura de COISAS DE LU, não importa o enredo, doloroso ou saboroso, sempre nos levando juntos, nos pondo nesse real que recuperas com palavras luminosas. Beijos de admiração e carinho,Lourença Lou, minha amada, amiga, parceira, escritora de tantos gêneros, um mais bem realizado que o outro

L

Não gostava de garotos. Andava sobre saltos e achava que homens maduros eram os grandes parceiros. Aquele menino subverteu meus conceitos ...