Ele era quase padre. Eu, adolescente. Ele era um desperdício
de lindo. Eu tinha os hormônios em
desassossego e cara de anjinho. Ele me olhava e disparava a rezar. Eu o olhava
e me doía o estômago. E as missas iam ficando pequenas para a fome do nosso
olhar. Um dia o esperei na porta da casa paroquial. Parou no meio da escada.
Não sabia se voltava ou me enfrentava. Enfrentou. E me viciou em amores
proibidos.
Lourença Lou
Paulo Bentancur A série COISAS DE
LOU, capítulo XX, sustenta a delícia da tensão amorosa em que a literatura
de Lourença Lou traz uma
intensíssima marca. A adolescente e o rapaz que se prepara para padre. Mas Deus
ou não olha essas coisas ou as bendiz mais do que supúnhamos. A trama,
admiravelmente breve, como num miniconto, embora de natureza autobiográfica,
traz a temperatura alta do que é essencialmente ficcional (porque sugestivo). O
que dá relevo literário ao texto, além da situação (emocionalmente com a força
do frisson), é a linguagem, adequadíssima à situação. Temperatura alta, quase
irrespirável. E frases de uma eufonia de mestre, ritmo de quem domina a prosa
com pulso firme. E aquele desfecho, com a acertada expressão "me viciou em
amores proibidos". Uma série já consagrada para quem a acompanha deste o
início. Eu adoro! Encontro aqui o acerto pleno da boa literatura e o prazer da
leitura que nos acelera o coração. Marca consagrada da série, que manténs sem oscilação.
Em suma: irresistível a leitura de COISAS DE LU, não importa o enredo, doloroso
ou saboroso, sempre nos levando juntos, nos pondo nesse real que recuperas com
palavras luminosas. Beijos de admiração e carinho,Lourença Lou, minha amada,
amiga, parceira, escritora de tantos gêneros, um mais bem realizado que o outro