O vale de Matutu, em
Aiuruoca, era daqueles lugares de paisagem sempre bela e o clima havia parado
nos anos 70. Foi este clima que me recebeu, trinta
anos depois. O poderoso cheiro de cannabis inundava os ares como um abraço
saudosista. Ignorei-o. E fingi ignorar também a lei da gravidade que mudou meu
corpo, tantas vezes coberto apenas com aquelas espumas. Mergulhei. Como se
rebatizada pelas águas claras, perdi o fôlego, me debati e emergi com os
cabelos grudados no rosto e incenso na memória. – Porque uma pessoa precisa
reencontrar seu passado de vez em quando – me justifiquei. As lembranças foram
vindo e insistindo em inundar meus olhos. Eu só queria exorcizá-las.
Lourença Lou
Paulo
Bentancur A ótima série
COISAS DE LOU, deliciosamente autobiográfica sem perder um charme e uma
atmosfera de ficção, é um dos grandes projetos já realizados pela multigêneros
(até há pouco tempo eu a chamava de poeta plural)Lourença Lou.
Visitando, muito tempo depois, uma região onde esteve nos anos 1970 e
experimentou a liberdade da época (longe dali a sombra de tantas
ditaduras), Lou, com uma prosa impecável traz à tona de tal
forma o que foi passado que, narrado desta forma, nem passado parece ser agora.
Mas é! Há uma busca de purificação desse tempo, de suas ações, aventuras,
riscos, prazeres. E o texto - como todo bom texto - não responde, apenas sugere
que o reencontro está se dando para que a liberdade daquilo tudo mostre que os
tempos são outros, mas a autora, múltipla e rica em sua condição humana,
continua com tantas coisas vivas - até mesmo as que não vive mais. Excelente
texto de rememoração. Não tem como não emocionar. E com força! Bom-dia e
beijos, querida e talentosa poeta, contista, cronista etc...