quarta-feira, 26 de setembro de 2018

XI


O vale de Matutu, em Aiuruoca, era daqueles lugares de paisagem sempre bela e o clima havia parado nos anos 70. Foi este clima que me recebeu, trinta anos depois. O poderoso cheiro de cannabis inundava os ares como um abraço saudosista. Ignorei-o. E fingi ignorar também a lei da gravidade que mudou meu corpo, tantas vezes coberto apenas com aquelas espumas. Mergulhei. Como se rebatizada pelas águas claras, perdi o fôlego, me debati e emergi com os cabelos grudados no rosto e incenso na memória. – Porque uma pessoa precisa reencontrar seu passado de vez em quando – me justifiquei. As lembranças foram vindo e insistindo em inundar meus olhos. Eu só queria exorcizá-las.

Lourença Lou




Paulo Bentancur A ótima série COISAS DE LOU, deliciosamente autobiográfica sem perder um charme e uma atmosfera de ficção, é um dos grandes projetos já realizados pela multigêneros (até há pouco tempo eu a chamava de poeta plural)Lourença Lou. Visitando, muito tempo depois, uma região onde esteve nos anos 1970 e experimentou a liberdade da época (longe dali a sombra de tantas ditaduras), Lou, com uma prosa impecável traz à tona de tal forma o que foi passado que, narrado desta forma, nem passado parece ser agora. Mas é! Há uma busca de purificação desse tempo, de suas ações, aventuras, riscos, prazeres. E o texto - como todo bom texto - não responde, apenas sugere que o reencontro está se dando para que a liberdade daquilo tudo mostre que os tempos são outros, mas a autora, múltipla e rica em sua condição humana, continua com tantas coisas vivas - até mesmo as que não vive mais. Excelente texto de rememoração. Não tem como não emocionar. E com força! Bom-dia e beijos, querida e talentosa poeta, contista, cronista etc...

L

Não gostava de garotos. Andava sobre saltos e achava que homens maduros eram os grandes parceiros. Aquele menino subverteu meus conceitos ...