quarta-feira, 26 de setembro de 2018

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Sempre fui uma caçadora. Sempre busquei o que queria, independente de ser politicamente correta ou não. Às vezes queria ser como as minhas colegas. Ser arrebatada por braços sedentos do meu corpo e adormecer com aquele sorriso de alice no país das maravilhas. Não conseguia. Minhas fibras eram por demais retesadas para qualquer tipo de entrega. Minhas entregas eram oficiosas, nunca oficiais. Um dia meu mundo anoiteceu. Após a extrema e malquerida experiência de ter a morte flertando comigo, me vi líquida. Líquida de gratidão pela vida. Líquida de amor a mim mesma. Líquida de desejos novos e urgentes. Foi assim que aqueles braços, antigos e quase ignorados, me reencontraram. Não foi preciso que ele escalasse nenhuma montanha para colher os meus desejos. Nem ser fogueira para arder em minha pele. Eu estava pura entrega. E foi doce escorrer em sua boca. E foi divino renascer menina embrulhada no seu carinho. Não foi eterno. Mas a caçadora aprendeu também a ser caça. E gostou. 

Lourença Lou




Paulo Bentancur Texto equilibradíssimo, condução da narrativa sob medida. Onde parece pieguice (alice no país da maravilhas e “E foi divino renascer menina embrulhada no seu carinho”), perpassa um humor e uma provocação do tema proposto. O que torna a confissão mais coerente e com atmosfera mais adequada, quase desafiadora. Esta série entre o confessional porém despido de quase qualquer peso, beira o miniconto. A atmosfera lança o tempo todo um humor enviesado. E o desfecho, bem mais leve, deixa o texto - agradabilíssimo de ler - como mais um dos tantos capítulos impecáveis do projeto. Eis o mais fundamental: o projeto e a linguagem. Eu ia acrescentar a forma, a estrutura, mas estaLourença Lou domina de tal forma que seria redundância da minha parte. Em suma, uma delícia. Pimenta doce. Beijos, poeta da prosa.

L

Não gostava de garotos. Andava sobre saltos e achava que homens maduros eram os grandes parceiros. Aquele menino subverteu meus conceitos ...