Ela era alta, loira e
linda. E estava literalmente dependurada no pescoço do meu marido. Alguma coisa
se mexeu dentro de mim. Não eram ciúmes – eu me dizia. Estávamos a um milímetro
de mais uma separação, por que a cena iria me incomodar? Surpreendentemente –
ou nem tanto –, incomodou. E muito. Uma vontade de ter garras crescia nas
pontas dos meus dedos. Antes que meu sangue de
guerreiros africanos se manifestasse, me virei para sair do salão. Talvez a
raiva fosse maior do que eu imaginava. Ou talvez o defeito estivesse no chão. O
salto agulha virou, o pé gritou e meu corpo perdeu a gravidade. Por segundos me
vi no último degrau – se não morta, fingindo estar. Fui salva por um abraço que
grudou minhas costas num peito largo. Um perfume bom e conhecido foi lá no
fundo buscar lágrimas que disfarcei. Nunca entendi como ele conseguiu se livrar
da serpente a tempo de me salvar.
Lourença Lou
Paulo Bentancur Definitivamente a
série "Coisas de Lou", em seu capítulo XXI, é uma afirmação. E cada
vez se revelando com alto grau de literariedade, como é a trama que agora a
poeta-surpresa e a escritora-plural nos oferece e à nossa emoção. O que seria
nas mãos de uma maciça maioria
uma banal cena de ciúmes, na linguagem limpa, eufônica e ao mesmo tempo rica em
sugestão de Lourença Lou resulta numa
história que nos impacta, comove, e alivia no desfecho. Embora a natureza
autobiográfica (que costuma eliminar a tensão literária), Lou alcança em regra um
efeito de força emocional. O leitor - quanto melhor ele for - não resiste. Eu
não resisti. Beijos, querida talentosa.